segunda-feira, 15 de outubro de 2012

O tempo e as jabuticabas


O TEMPO E AS JABUTICABAS

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora.   Sinto-me como aquela menina que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ela chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados. 
Não tolero gabolices. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos. Não participarei de conferências que estabelecem prazos fixos para reverter a miséria do mundo. Não quero que me convidem para eventos de um fim de semana com a proposta de abalar o milênio.

Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir estatutos, normas, procedimentos e regimentos internos. Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.

Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em reuniões de 'confrontação', onde 'tiramos fatos a limpo'. 
Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral.
Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: 'as pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos'. 
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa...
Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados, e deseja tão somente andar ao lado do que é justo.

Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, desfrutar desse amor absolutamente sem fraudes, nunca será perda de tempo.

O essencial faz a vida valer a pena.

Rubem Alves

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Tatiana e etc


Qual o problema com a pronúncia do meu nome aqui na França?  Será que é somente por eu ser uma brasileira com um prenome eslavo e isso as pessoas não conseguem compreender?

“Tatianá” (com o sotaque francês) eu aceito numa boa e até acho bonitinho, porque sei que é complicado alguém por aqui pronunciar Tatiana normalmente. Mas me chamar de Tatânia, não é muito mais difícil? Vai chegar o dia que alguém vai me chamar de Taturana, Tarântula e aí o bicho vai pegar...

E se me chamarem de “Tataiana” não vou aceitar, porque só tem uma pessoa no mundo autorizada a me chamar assim: minha mãe.

O meu nome é minha identidade. Aliás, é mais importante do que minha identidade, porque eu já era Tatiana antes mesmo de nascer.

sábado, 15 de setembro de 2012

O gelo seco e nostalgia


Tenho andado tão ocupada, fazendo mil coisas ao mesmo tempo que não penso mais em coisas agradáveis. Quando chego em casa, é banho e cama e mais nada.
Num desses dias, consegui finalmente almoçar em casa (primeiro dia sem sanduíche e almoçando no horário) e liguei o rádio na MPB FM. A primeira música do playlist era a “Dois passos do paraíso” da Blitz e antes da música começar a tocar, a locutora falou algumas coisas sobre o grupo, a música e um show do grupo, em algum ano da década de 80. Eu estava nesse show. Óbvio, com meus pais e meu irmão, que pequeninho, quando viu uma carta gigante, representando a carta de “Arlindo Orlando” (quem conhece a música vai entender), virou para o meu pai e disse: “olha o tamanho da carta, papai”. Nesse momento, as lembranças da minha infância vieram à tona e me emocionei.
Com a emoção, viram a reboque outras memórias e lembrei de um depósito da Yopa, que tinha no térreo do prédio onde minha família morava. Os sorveteiros buscavam ali seus produtos para revendê-los. Os sorvetes amassados seriam descartados, se não fosse por um detalhe: eu e meu irmão juntávamos jornal velho em troca dos sorvetes amassados. E por que jornal? O jornal, acondicionado com gelo seco, protegia os picolés e eles não derretiam.  Lembro do Seu Manuel que nos dava os picolés com a maior satisfação do mundo... Depois veio o Seu João, que fazia o mesmo conosco. Como era bom...
O depósito fechou, a Yopa acabou e as lembranças ficaram. Sei que o Seu Manuel mora em Fortaleza com sua família, mas eu perdi o contato com a filha dele, que fez ballet comigo. Do seu João ficou a lembrança dele ter vendido um Passat para a minha família (minha mãe nunca conseguia engatar a ré do carro) e nada mais. Lembro também do Eugênio, vendedor de sorvete muito simpático e gentil. Por onde será que andam¿ Por ares terrenos ou celestiais?

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Centenário Nelson Rodrigues


Colégio Pedro II, Fluminense, futebol... Nelson Rodrigues escreveu muitas vezes sobre as grandes paixões da minha vida, além de outros tantos assuntos interessantes e curiosos...

Pornográfico, reacionário, louco... Foi chamado de muitos nomes, mas na minha opinião, o adjetivo que lhe cai bem é GÊNIO. Maior dramaturgo, escritor e cronista que o Brasil já teve. Mil anos passarão e não chegará ninguém aos pés do grande Nelson.

Hoje, centenário de seu aniversário, deixo a minha homenagem: como amante da literatura rodriguiana e fã do menino que via o amor pelo buraco da fechadura... O anjo pornográfico!

Como eu sei que nem todos irão concordar comigo (e nem quero, tem gente que prefere Paulo Coelho), encerro com uma frase perfeita:

“Toda unanimidade é burra.” – Nelson Rodrigues



sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Irmão, é preciso coragem

Sempre que eu ouço a expressão "bon courage", eu me lembro da novela Irmãos Coragem. A reboque, lembro da música da abertura, que tinha como um dos versos "irmão, é preciso coragem".
Está bom e o quico? O quico é que não tem graça nenhuma eu morar em um lugar e não poder soltar nenhum bordão, porque não haverá graça ou as pessoas não entenderão.
Acho que depois da comida (óbvio que a minha família é top 1 no quesito "sinto saudades"), a possibilidade de fazer uma piadinha no meu idioma e ser entendida, é o que mais sinto falta. Mesmo que as pessoas não achem graça.
Ainda mais agora, com o fechamento da academia para as obras de reforma, o que mais tenho ouvido é "bon courage avec les travaux". Ainda são 10:56 e já ouvi umas 15 vezes. Pelo menos é um sinal de que as pessoas sabem que será um transtorno, trabalhar ao som de marreta, martelo e entubando cheiro de tinta por 15 dias. Mas há males que vêm pra bem...


quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Casamento, divórcio e outras invenções da sociedade

O quanto deixa de ser submissa a mulher que se casa e não aceita o sobrenome do marido? O quanto deixa de ser macho o homem que se resigna em não ter o seu sobrenome na sua mulher?
Por razões práticas, não decidi usar o nome do meu futuro marido. Quando contei a novidade, ele ficou mais branco do que é e não aceitou muito bem a minha decisão. Justifiquei que teria muito trabalho para mudar todos os meus documentos e além do mais, em caso de divórcio, as coisas ficariam mais práticas para mim. Sim, eu penso em todas as possibilidades e não acredito no "viveram felizes para sempre".
Óbvio que a desculpa não colou e ainda tive que ouvir: "o que os nossos filhos vão dizer/pensar?". Eu disse, "oras, eles saberão a verdade que eu não optei pelo sobrenome do papai porque não queria ter trabalho para trocar a minha documentação". Mesmo com a minha justificativa, não continuou colando e a culpa nos filhos, que ainda nem nasceram, voltou à tona: "mas nossos filhos vão querer saber porque a mãe deles não tem o sobrenome do pai". Oras, quantas noivas agregam o sobrenome do marido ao seu sobrenome? Milhões? E quantas não o fazem? Muitas.
Sei que esse imbróglio vai rolar até o dia de fecharmos o contrato de casamento no notário e vou ouvir muitas justificativas ainda. Só fico pensando no tamanho do meu nome, caso agregue o sobrenome do Julien ao meu, ficaria gigante: porque não tiro nenhum dos meus sobrenomes. Como tenho um segundo nome agregado ao Tatiana, eu teria uma identidade com 5 nomes/sobrenomes...
Sei que é romântico, lindo e maravilhoso você assumir para o mundo o sobrenome do (novo) marido, mas a vida me ensinou que conto de fadas só existe no cinema. Para que vou agregar o sobrenome do meu marido? Para sambar na cara da sociedade, provando que sou casada? Para alterar o meu nome no Facebook e tirar onda pelo casamento? A essa altura do campeonato, tirar onda com casamento não é algo que possa a ser feito... Já estou com 35 anos, é meu segundo casamento e soa muito mais como prêmio de consolação.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

E-mail para quem nem sabe ler ainda

Minha sobrinha ainda não fez dois anos de idade, mas já tem conta de e-mail. Meu irmão, não sei porque cargas d'água, resolveu criar um e-mail para ela.
Eu, como tia coruja e apaixonada, tentei escrever o primeiro e-mail dela. Não escrevi muito, porque fiquei emocionada e não consegui terminar, então saiu o texto abaixo, que foi enviado assim mesmo.


Oi, Mariana

Não sei como você vai fazer para ler esse e-mail. Talvez, quando você já saiba ler, a tecnologia esteja mais avançada e eu possa demonstrar o que sinto por você de outra maneira.
Infelizmente, por escolhas e coisas do destino, sua tia mora longe de você. Beeeeeeeem longe, mas nada que a internet ou um avião não possam resolver.
Saiba que o amor que sinto por você é bem maior do que a distância que nos separa, bem maior do que a saudade que eu sinto de você todos os dias da minha vida. Te amo demais, minha bonequinha. Um dia, provavelmente no ano que vem, te darei priminhos. Você virá conhecê-los e eles passarão férias com você no Rio. Por mais que a distância seja grande, nada poderá me separar de você.
Você é a minha princesa, o meu amor, a minha boneca. Todos os dias peço a Deus que continue abençoando você e nossa família. Você foi o maior presente que Deus poderia ter me dado.

Um beijo dessa tia que te ama infinitamente,

Tatiana Leal