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sexta-feira, 8 de julho de 2011

Em cima do muro - Moacyr Scliar

Duas artes o brasileiro teve de aprender, por injunções óbvias: a de engolir sapos e a de ficar em cima do muro. Em termos de deglutir batráquios nosso povo é mestre, mesmo porque muitas vezes não há outro alimento ao alcance. Engole-se por estas bandas sapos dos mais variados tipos, inclusive aqueles que, pelas dimensões, sugerem a possibilidade de príncipes encantados por ação de feiticeiras por decerto familiarizadas com aquela estratégia do poder que consiste em dar sumiço nos adversários sem necessariamente acabar com eles. Aliás, quem engole sapo, engole príncipe, pois se nossos sapos não são príncipes (felizmente a monarquia foi abolida) correspondem pelo menos a chefes, diretores, mandatários dos mais variados calibres.

Ficar em cima do muro é mais fácil, mesmo quando a espessura do muro não passa de uns poucos milímetros, como sói acontecer. Mas é que as fórmulas para isto já estão desenvolvidas. Você não precisa ser necessariamente um equilibrista; é necessário contudo um bom jogo de cintura, o que se adquire com certa facilidade apertando o cinto - de novo, uma manobra a que os brasileiros estão acostumados a recorrer. Além disto é preciso manter um sorriso permanente (a teoria do sorriso permanente é algo que os sociólogos comparam à teoria de revolução permanente, de Trotsky). E sobretudo manipular adequadamente as frases que há séculos vêm sendo por aqui elaboradas, do tipo "melhor que Vossa Excelência, só o sucessor de Vossa Excelência" e que deram a Minas Gerais uma fama que aquela região não conseguiu ter nem à época do ouro e das pedras preciosas. Preciosas são estas frases, sobretudo se usadas com a rapidez necessária, comparável à exigida de um pistoleiro no Velho Oeste (as circunstâncias, aliás, nem são muito diferentes).